Depois de algum tempo, eis-me aqui para escrever mais um singelo texto de opinião sobre a situação política atual. Hoje, o assunto é a atual polarização política.
A polarização atual lembra os tempos de Vargas e de Jango. Naquela época, fantasticamente descrita pelo historiador Jorge Ferreira em seu livro "Democracia no Brasil (1945-1964)", havia um verdadeiro Fla-Flu ideológico, abastecida pela Guerra Fria - ironicamente, o ápice dessa polarização ocorreu quando a Guerra Fria já estava em seu declínio, na esteira da "détente" entre EUA e URSS - e por uma imprensa, capitaneada pelos jornais de Roberto Marinho e de Carlos Lacerda, que não se envergonhava de dizer de qual "lado" estavam.
De 12 anos para cá, essa polarização vem ganhando nova força. Se, em 2002, havia um certo consenso nacional em torno de uma necessária mudança de ares políticos após 8 anos de democracia (neo)liberal fragilizada pelas intermináveis crises da periferia do capitalismo mundial, em 2014, há um distanciamento cada vez maior entre os dois projetos nacionais hegemônicos, materializados pelo PT e pelo PSDB.
Essa divisão, hoje, é abastecida por uma mídia que, se, por um lado, é mais sorrateira em seus propósitos, por outro, é mais ubíqua e mais forte, em razão da maior concentração dos veículos de comunicação nas mãos de poucas famílias. Outro forte componente desse abismo ideológico incomunicável é o inexplicável rancor de classes médias urbanas (incluindo classes médias baixas inexplicavelmente conservadoras) em relação ao projeto social-democrata que o PT vem instituindo no país desde 2003. Não se pode deixar de lado, igualmente, a direita paranoica que vê comunismo em todos os cantos, e que, infeliz e surpreendentemente, arregimenta muitas pessoas.
Parece-me que, hoje, não há mais uma possibilidade de debate minimamente civilizado com uma pessoa que se considera "anti-PT". Creio, também, que não haja paralelo no mundo atual para alguma comparação em razão da voracidade e ferocidade contra uma ideologia política - talvez o macartismo dos EUA dos anos 1950. As redes sociais pioram isso: transformam a luta ideológica em uma ciranda de fotomontagens (frequentemente grosseiras e de mau gosto), chavões e ódio. É o analfabeto político agressivo, que tem ideias absurdas pré-concebidas e pretensamente "científicas", mas que rejeita os dados mais básicos de melhoria do país nem o pensa de forma a civilizá-lo, mas a instalar uma mentalidade retrógrada, um verdadeiro salve-se quem puder neoliberal.
Precisamos nos mobilizar. Como disse o Lula, precisamos mostrar como as coisas estavam e como elas estão hoje e comparar: não há sequer um indicador econômico - desemprego, balança de pagamentos, investimento externo direto, inflação, produtividade do trabalho, renda, e mesmo o número "mágico" para o rico, que é a remuneração do capital - que seja melhor nos tempos feagaceanos. Isso, sem contar nos indicadores sociais.
Obviamente que ainda estamos longe do Brasil que sonhamos, mas precisamos argumentar, sem vergonha de mostrar que somos de esquerda, sem artifícios bobos, com muitíssima coragem, paciência e energia, e que defendemos, além de liberdade individual, um apreço inesgotável à igualdade. Precisamos dizer algo de esquerda.
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